Boletim Informativo – VOLUME 2

Diagnóstico dosPovose TerritóriosIndígenasdo Cerrado

Vetores de pressão sobre as terras indígenas do Cerrado: empreendimentos e fogo. Uma construção conjunta da MOPIC e do Centro de Trabalho Indigenista (CTI).

Novembro/2025

Apresentação

Empreendimentos e fogo: os vetores de pressão que ameaçam as terras indígenas do Cerrado.

Neste segundo boletim informativo, dando continuidade à disseminação dos resultados alcançados até o momento no âmbito do Diagnóstico dos Povos e Territórios Indígenas do Cerrado, são apresentados os dados relativos aos vetores de pressão associados aos empreendimentos e ao fogo/queimadas que ameaçam as terras indígenas do Cerrado.

Dentro da temática sobre os vetores de pressão foram realizados levantamentos e análises sobre os empreendimentos existentes e planejados, localizados no interior ou entorno dos territórios, que afetam ou podem potencialmente impactar as terras indígenas localizadas no Cerrado. São empreendimentos associados à infraestrutura logística (rodovias, ferrovias, hidrovias, portos secos), ao aproveitamento energético (linhões, subestações, UHEs, PCHs, eólicas e solares) e à exploração de petróleo, gás e mineração, que evidenciam como a consolidação de corredores logísticos e grandes obras de “desenvolvimento” abrem e reforçam frentes de pressão sobre terras indígenas e seus entornos.

Foram selecionadas 15 terras indígenas, distribuídas pelos principais estados com presença do bioma Cerrado, como estudos de caso paradigmáticos que reúnem um conjunto de informações referentes aos empreendimentos incidentes e/ou no entorno, com o objetivo de oferecer uma visão consolidada das pressões e riscos enfrentados pelas TIs, servindo como ferramenta para monitoramento, planejamento e construção de estratégias de ação. São apresentadas ainda recomendações para subsidiar a atuação da MOPIC e de suas organizações no acompanhamento, incidência e controle social dos processos de licenciamento ambiental dos empreendimentos, com vistas a garantir a legalidade/regularidade desses processos, bem como assegurar a efetiva participação dos povos indígenas do Cerrado e seu direito à consulta livre, prévia e informada.

Os dados de fogo e áreas queimadas nas TIs do Cerrado compreendem séries históricas e mapas anuais que permitem a visualização das incidências dos focos de calor e o ranking das principais terras indígenas impactadas. De forma complementar, foram levantadas informações sobre a cobertura e a capacidade de resposta do PrevFogo/IBAMA e das brigadas de combate aos incêndios florestais indígenas, apresentando a distribuição e a tipologia das brigadas federais, comunitárias e voluntárias, bem como lacunas territoriais na prevenção e no manejo integrado do fogo em áreas críticas. A análise destaca a importância das iniciativas indígenas na mitigação de danos, na proteção de mosaicos de vegetação nativa e na salvaguarda de roçados, locais sagrados e infraestruturas comunitárias.

Em conjunto, os dois temas compõem um panorama das pressões sobre os povos e territórios indígenas do Cerrado. O objetivo central é oferecer subsídios técnicos e políticos para a incidência da MOPIC e de organizações parceiras, reforçando que a proteção das terras indígenas é condição estruturante para a conservação do bioma, para a justiça climática e para a garantia dos direitos dos povos indígenas do Cerrado.

Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado – MOPIC

A Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado – MOPIC foi criada em 2004 com a finalidade de promover uma articulação política para a garantia dos direitos dos povos indígenas do Cerrado e defesa dos seus territórios, além de incidir nas políticas públicas para a conservação desse bioma e apoiar ações de gestão territorial e ambiental das terras indígenas do Cerrado. Pelo seu caráter de mobilização, atua de forma descentralizada, por meio de ações locais e regionais, promovendo intervenções, encontros, debates e seminários para discutir as perspectivas dos diferentes povos indígenas sobre as políticas públicas, as ameaças e as oportunidades presentes nos territórios localizados no Cerrado, fortalecendo a articulação entre os povos e suas organizações.

Outra forma importante de atuação da MOPIC é a participação em foros e grupos de trabalho governamentais e não-governamentais com o objetivo de pautar as questões prementes que afetam o Cerrado e os povos indígenas que nele vivem, além de fomentar financiamentos específicos para apoiar a gestão territorial e ambiental das terras indígenas do Cerrado. A MOPIC é membro da REDE CERRADO, organização fundada em 1992 com objetivo de promover a sustentabilidade e defesa do Cerrado e de seus povos, composta aproximadamente por 70 entidades da sociedade civil associadas.

Coordenação da Rede Cerrado · mandato até 2027

Bioma, vegetação e bordas: o Cerrado em perspectiva indígena

A vida no Cerrado não cabe em linhas de mapa: três critérios para compreender a amplitude dos povos e territórios indígenas.

Neste segundo volume do boletim, adotamos três critérios de classificação para compreender a amplitude dos Povos Indígenas e Territórios do Cerrado e refletir sobre a diversidade de situações encontradas: Cerrado bioma, definido pelos limites cartográficos oficiais; Cerrado vegetação, referente às ocorrências de fitofisionomias típicas do Cerrado mesmo fora do polígono oficial; e Cerrado e suas bordas, isto é, as áreas de transição entre o Cerrado e outros biomas, onde ecologia, práticas culturais e territorialidades se entrelaçam e se prolongam.

Cerrado bioma inclui tanto os territórios totalmente dentro do bioma, com alta presença de fisionomias e processos ecológicos, quanto casos em que a incidência de Cerrado é pequena ou periférica. Já Cerrado vegetação reúne ocorrências de fitofisionomias típicas do Cerrado fora do polígono oficial, que podem variar de áreas contínuas e bem preservadas a manchas muito reduzidas, fragmentadas ou até descaracterizadas por mudanças no uso do solo.

Nas bordas do Cerrado a transição ecológica não é apenas mistura entre formações vegetais; ela frequentemente coincide com fronteiras político-históricas em movimento. Nesses espaços, o entrelaçamento entre processos naturais e sociais produz uma dupla condição: de um lado, variações ecológicas que alternam cerradões, veredas, matas secas e florestas estacionais; de outro, variações culturais e políticas, nas quais se expressam territorialidades específicas e se intensificam as lutas pela defesa do Cerrado.

Essa distinção é necessária porque a vida no Cerrado não cabe em linhas de mapa: povos, rios, veredas, cerradões e matas secas formam territorialidades que atravessam bioma, vegetação e áreas de transição. Os povos indígenas aqui considerados têm trajetórias e experiências com o Cerrado em várias dimensões — arqueológicas, históricas e cosmológicas — que, em parte, são compartilhadas entre eles. Desse compartilhamento nasce uma cosmopolítica comum: diferentes maneiras de criar mundos possíveis nos encontros e alianças entre povos.

Essa decisão metodológica fundamenta-se em razões ecológicas, políticas, territoriais e socioculturais. As áreas de transição entre biomas não são fronteiras rígidas, mas regiões com forte interpenetração de espécies vegetais e práticas territoriais; os povos indígenas que vivem nessas zonas compartilham pressões fundiárias, ameaças ambientais e dinâmicas políticas similares às do Cerrado central; e tais territórios são frequentemente invisibilizados por políticas e dados que se restringem a critérios cartográficos formais. Soma-se a isso o fato de que muitas dessas terras encontram-se em situação de reivindicação ou em fases iniciais do processo demarcatório.

Este levantamento considera apenas terras indígenas com algum processo demarcatório em curso, a partir dos dados disponibilizados pelas fontes oficiais. Os números seguem em refinamento no Diagnóstico; quanto às reivindicações por novas terras, esse número ainda está em elaboração. Os totais não devem ser somados entre si, e sim lidos como perspectivas complementares de um mesmo cenário.

Área de incidênciaBioma e Vegetação
Quantidade de terras305
Estados24
AC · AL · AM · AP · BA · DF · CE · GO · MA · MG · MS · MT · PA · PB · PE · PI · PR · RJ · RO · RR · RS · SC · SP · TO
Área de incidênciaBioma
Quantidade de terras113
Estados09
DF · GO · MA · MG · MS · MT · PA · RO · TO
Área de incidênciaVegetação
Quantidade de terras192
Estados21
AC · AL · AM · AP · BA · CE · MA · MG · MS · MT · PA · PB · PE · PI · PR · RJ · RO · RR · RS · SC · SP
Área de incidênciaCerrado e suas Bordas
Quantidade de terras179
Estados10
DF · GO · MA · MG · MS · MT · PA · BA · RR · TO

Ao todo, 305 TIs têm incidência simultânea no bioma e nas fisionomias de vegetação do Cerrado, espalhadas por 24 estados. Dessas, 113 TIs incidem apenas dentro do limite oficial do bioma, enquanto 192 TIs incidem apenas em áreas de vegetação de Cerrado (manchas/fisionomias) fora ou além do contorno oficial do bioma. No bioma e em suas bordas, são 179 TIs situadas entre o Cerrado e outros domínios.

TIs do Cerrado e as pressões desenvolvimentistas

Rodovias, ferrovias, hidrelétricas, grilagem e agronegócio: uma dinâmica de cerco territorial em torno das terras indígenas.

As TIs do Cerrado sofrem com um padrão de pressões externas cumulativas, marcadas pelo avanço da fronteira agrícola, grandes empreendimentos energéticos (hidrelétricas e PCHs), ferrovias, hidrovias e rodovias, além da grilagem e da especulação fundiária. Nota-se uma situação de vulnerabilidade socioambiental, na qual o modelo de desenvolvimento regional prioriza o agronegócio e a logística de exportação em detrimento da proteção dos territórios tradicionais e do modo de vida dos povos indígenas e populações tradicionais.

A expansão da malha rodoviária no Cerrado potencializa o avanço da fronteira agrícola e intensifica a pressão fundiária sobre as terras indígenas. As rodovias estruturam corredores logísticos que facilitam o escoamento da produção de grãos, carne e minérios e funcionam como eixos de penetração em áreas antes contínuas de vegetação nativa. A abertura de estradas principais e vicinais segue muitas vezes o padrão “espinha de peixe”, ampliando a ocupação irregular e a especulação sobre territórios indígenas ainda em processo de regularização.

Esse cenário é alimentado por vultosos investimentos nos empreendimentos de infraestrutura atrelados às áreas de produção agropecuária, especialmente da soja e do milho. Em 2024, os investimentos nos “corredores do agro” para exportação da safra 2024/2025 atingiram R$ 3,6 bilhões só do Ministério dos Transportes. O novo PAC abrange uma carteira para o eixo de transporte da ordem de R$ 330 bilhões e uma previsão de cerca de 700 km de rodovias duplicadas até 2026. Para o transporte ferroviário, os investimentos estão direcionados à construção de 1.400 km de ferrovias, vinculadas à FIOL (EF-334) e à FICO (EF-354).

Por sua vez, o Plano Nacional de Logística – PNL 2035 (INFRA S.A.) indica um montante de até R$ 789 bilhões em investimentos públicos e privados em obras de infraestrutura até 2035, incluindo a expansão da malha ferroviária no Cerrado: Ferrogrão, FIOL, FICO, novos trechos da Ferrovia Norte-Sul e extensões das malhas em operação.

A combinação entre rodovias, agronegócio e grilagem cria uma dinâmica de cerco territorial em torno das terras indígenas, reduzindo a integridade ambiental de seus entornos, favorecendo invasões e dificultando a plena efetivação de seus direitos territoriais. O resultado é um quadro de pressão permanente que compromete tanto a reprodução física e cultural dos povos indígenas quanto a conservação do bioma.

R$ 3,6 biinvestidos em 2024 nos “corredores do agro” (Min. dos Transportes)
R$ 330 bicarteira do Novo PAC para o eixo de transportes
1.400 kmde novas ferrovias (FIOL e FICO)
R$ 789 biprevistos pelo PNL 2035 em obras de infraestrutura

Quadro 1 · Principais investimentos entre obras de infraestrutura do Novo PAC – 2023/2030

EmpreendimentoUFEstimativa valor total (R$)Tipo executor
Extensão Ferrovia Malha Norte (RUMO S.A.)MT900 milhõesPrivado
Estrada de Ferro CarajásMA/PA830 milhõesPrivado
Ferrovia Norte Sul S.A.TO/MA850 milhõesPrivado
BR-163 (Divisa MS/PR – MS/MT) – ConcessãoMS550 milhõesPrivado
Construção da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste – FICOGO/MT320 milhõesPrivado

¹ Novo PAC – obras de infraestrutura.

Contextos regionais

Três recortes regionais para analisar impactos sinérgicos e cumulativos dos empreendimentos sobre as terras indígenas.

Diante desse panorama, foram definidos recortes regionais de análise, levando em consideração as características socioambientais, a presença de um mosaico de TIs e o histórico de pressão do avanço dos eixos de desenvolvimento em cada macrorregião. A análise integrada dos empreendimentos existentes ou planejados em uma mesma unidade espacial permite avaliar o conjunto de empreendimentos com potencial de apresentar impactos sinérgicos e cumulativos, permitindo igualmente refinar e calibrar os cenários de ações e incidências políticas na defesa de direitos dos povos impactados.

Integração Leste/Oeste

Mato Grosso

Transição Cerrado/Amazônia

TIs: Marechal Rondon, Sangradouro/Volta Grande, Bakairi, Tereza Cristina

Integração continental

Mato Grosso do Sul

Transição Cerrado/Pantanal

TIs: Cachoeirinha, Buriti, Dourados e Pirakuá

Corredor Norte-Sul

MATOPIBA

Transição Cerrado/Caatinga

TIs: Kanela/Kanela-Memortumré, Krikati, Apinayé, Kraolândia, Avá-Canoeiro, Xerente, Xacriabá

Estudos de caso

15 terras indígenas analisadas: empreendimentos, cobertura da terra e desmatamento no interior e no entorno dos territórios.

De forma a viabilizar análises mais aprofundadas sobre os empreendimentos que afetam as terras indígenas do Cerrado e áreas de transição, foram definidas 15 terras indígenas, considerando critérios de representação geográfica, etnográfica e política, a partir de consulta realizada em articulação com a MOPIC. As informações foram sistematizadas em uma base de dados sobre rodovias, ferrovias, linhas de transmissão, hidrelétricas, projetos minerários e expansões agrícolas, entre outras tipologias que podem gerar impactos diretos ou indiretos sobre a integridade ambiental, hídrica, cultural e territorial das comunidades.

Essa síntese evidencia como os diferentes empreendimentos, isoladamente ou de forma cumulativa, afetam os modos de vida, a segurança territorial e a preservação ambiental, e permite identificar lacunas nos processos de licenciamento — especialmente na implementação do Estudo do Componente Indígena (ECI) e na exigência de consulta prévia, livre e informada conforme a Convenção 169 da OIT.

Quadro 6 · Terras Indígenas foco das análises

Terra IndígenaPovoUFMunicípiosSituação
Kanela-MemortumréKanelaMABarra do Corda, Fernando FalcãoIdentificada¹
KrikatiKrikatiMAAmarante do Maranhão, Lajeado Novo, Montes Altos, Ribamar Fiquene, Sítio NovoRegistrada
KraolândiaKrahôTOGoiatins, ItacajáRegistrada
ApinayéApinayéTOCachoeirinha, Maurilândia do Tocantins, São Bento do Tocantins, TocantinópolisRegistrada
XerenteXerenteTOTocantíniaRegistrada
Sangradouro/Volta GrandeXavanteMTGeneral Carneiro, Novo São Joaquim, PoxoréuRegistrada
Marechal RondonXavanteMTParanatingaRegistrada
Tereza CristinaBororoMTSanto Antônio do LevergerDeclarada
BakairiBakairiMTParanatinga, Planalto da SerraRegistrada
XacriabáXakriabáMGItacarambi, São João das MissõesRegistrada²
Avá-CanoeiroAvá-CanoeiroGOColinas do Sul, MinaçuHomologada
BuritiTerenaMSSidrolândia, Dois Irmãos do BuritiDeclarada³
CachoeirinhaTerenaMSMiranda, AquidauanaDeclarada⁴
PirakuáGuarani KaiowáMSBela Vista, Ponta PorãRegistrada
DouradosTerena, Guarani KaiowáMSDourados, ItaporãRegistrada

Fonte: FUNAI – CRM (https://cmr.funai.gov.br/). ¹ ² ³ ⁴ Terras em reestudo de limites.

Mapas por estado

Estratégias de enfrentamento

Os vetores de pressão sobre as terras indígenas do Cerrado exigem atenção integrada e contínua, combinando licenciamento ambiental rigoroso, estudos de componente indígena, participação da comunidade e fiscalização efetiva. Nesse sentido foram elencadas algumas recomendações gerais para subsidiar a atuação da MOPIC e das demais organizações indígenas:

  • Articulação entre órgãos públicos, lideranças indígenas e sociedade civil, garantindo participação ativa do órgão indigenista e das lideranças em todos os processos de licenciamento ambiental dos empreendimentos.
  • Assegurar a realização de consulta prévia, livre e informada (CPLI) conforme a Convenção 169 da OIT.
  • Exigir a realização de Estudos de Componente Indígena (ECI) completos e prévios, antes de qualquer intervenção.
  • Garantir a participação ativa das comunidades impactadas na estruturação e implementação dos PBAs (Programa Básico Ambiental), enquanto mecanismo de compensação que deve conter ações efetivas.
  • Priorizar ações de fiscalização sobre rodovias e ferrovias que cruzam ou tangenciam as TIs, para mitigação de acidentes e pressões sociais.
  • Implementar monitoramento participativo da qualidade da água e do solo; intensificar a fiscalização contra invasões e mineração ilegal.

A questão fundiária é elemento central e primordial para a construção de estratégias articuladas na defesa dos territórios indígenas e da preservação ambiental. A regularização dos territórios deveria anteceder ou estar diretamente vinculada a qualquer ação de monitoramento dos empreendimentos planejados e existentes. Por isso é de suma importância a constante articulação, mobilização e incidência política e jurídica dos povos e organizações indígenas para o reconhecimento e a demarcação de suas terras, assegurando a posse plena e o usufruto exclusivo, conforme determinam as normas constitucionais.

Os Estudos de Componente Indígena são cruciais, primeiro, para avaliar a viabilidade ambiental do empreendimento e, em sendo viável, para mitigar seus impactos. Ainda que ECIs e medidas de mitigação e compensação sejam formalmente previstos, sua implementação costuma ser limitada no escopo e no tempo. Todas as TIs em estudo apresentam um padrão recorrente de ausência ou fragilidade de ECIs, ausência de consulta prévia, livre e informada e licenciamento fragmentado, com decisões parciais que não consideram impactos cumulativos.

Fogo no Cerrado: áreas queimadas

Incêndios de grande magnitude não são eventos isolados, mas recorrentes — com picos em 2017 e 2024.

Nos últimos anos, a intensificação de pressões antrópicas — como desmatamento, expansão agropecuária e uso inadequado do fogo —, somada à variabilidade climática e a eventos de estiagem prolongada, tem ampliado a extensão e a severidade das áreas queimadas no interior de TIs. Esse cenário coloca em risco não apenas a integridade ecológica dos territórios, mas também suas funções socioculturais, com impactos diretos sobre modos de vida, manejo tradicional e patrimônio imaterial dos povos indígenas.

A síntese da dinâmica das queimadas em TIs no Cerrado entre 2014 e 2024 revela um comportamento não linear, com variações acentuadas: os valores oscilam entre um mínimo em 2021 e dois picos máximos em 2017 e 2024, evidenciando que incêndios de grande magnitude não são eventos isolados, mas recorrentes.

Área queimada nas Terras Indígenas do Cerrado (2014–2024), em milhões de hectares

0 mi1 mi2 mi3 mi4 mi2014: 2.702.661 ha2,7020142015: 2.610.079 ha2,6120152016: 2.952.735 ha2,9520162017: 3.542.769 ha3,5420172018: 1.661.690 ha1,6620182019: 2.054.899 ha2,0520192020: 1.806.995 ha1,8120202021: 1.471.736 ha1,4720212022: 1.839.437 ha1,8420222023: 1.411.512 ha1,4120232024: 3.423.926 ha3,422024

Dados de áreas queimadas de 2014 a 2024 obtidos no MapBiomas Fogo – Coleção 4, que utiliza imagens Landsat (30 m) e inclui etapas de processamento, detecção e validação.

Para definir áreas prioritárias, elaborou-se um ranking anual das 20 TIs com maior área queimada entre 2014 e 2024. Em todos os anos, o Parque do Araguaia aparece disparado como a TI com maior área queimada, chegando a quase 900 mil hectares em 2017; mesmo em anos de menor intensidade (2018, 2020, 2021, 2022), continua na liderança absoluta. Tal padrão sugere não apenas a recorrência do fogo como fenômeno estrutural, mas também fragilidades relacionadas à resiliência ambiental do território.

As TIs Pimentel Barbosa, Inawébohona, Paresi, Kraolândia, Parabubure, Marãiwatsédé e Xavante (Areões, Ubawawe, São Marcos-MT etc.) aparecem constantemente entre as 20 primeiras. Os incêndios são crônicos em determinadas regiões, especialmente no Mato Grosso e no Tocantins. Outros territórios figuram de maneira pontual — Araribóia em 2019, Sangradouro/Volta Grande em 2017 e 2022 e Tirecatinga em 2022 —, sugerindo que podem ser severamente afetados em determinados anos em função de variáveis climáticas e de pressões antrópicas específicas.

2024: tipos de uso e cobertura afetados

Para 2024, ano de maior severidade da série histórica, analisaram-se os tipos de uso e cobertura da terra impactados nas TIs mais atingidas, com base no “Monitor do Fogo” do MapBiomas. Os tipos mais afetados são florestas e vegetações herbáceas, com impactos significativos na recarga hídrica e na biodiversidade: os incêndios não se restringem a áreas abertas, afetando também ecossistemas mais densos e complexos. A vulnerabilidade desses territórios está diretamente relacionada à interação entre condicionantes climáticos e pressões antrópicas, reforçando a urgência de estratégias de manejo integrado e de políticas públicas de mitigação e adaptação.

Parque do Araguaia
Pimentel Barbosa
Paresi
Kadiwéu
Parabubure
Areões

Mapas anuais das áreas queimadas em TIs

Os mapas anuais (2014–2024) demonstram de forma visual a expansão e a retração das áreas queimadas, evidenciando padrões espaciais recorrentes: o Parque do Araguaia figura como epicentro do fogo, com recorrência anual e, em alguns anos, ultrapassando 800 mil hectares queimados. Pimentel Barbosa, Paresi, Inawébohona e Kraolândia apresentam reincidência frequente, o que sinaliza uma condição crônica de vulnerabilidade.

Brigadas Federais e Brigadas Voluntárias em TIs

A rede de brigadas indígenas é um importante eixo de proteção territorial no Cerrado.

BRIFs Indígenas vinculadas ao PrevFogo em 2025
0
brigadistas nas BRIFs Indígenas
0
Brigadas Indígenas Voluntárias identificadas
0
unidades federativas com brigadas indígenas
0

O Programa de Brigadas Federais (Brigadas Federais de Incêndio – BRIF) é coordenado pelo Ibama no âmbito do Manejo Integrado do Fogo (MIF), abordagem que integra fatores ecológicos, socioeconômicos, culturais e técnicos no planejamento e na gestão do uso do fogo. As brigadas são selecionadas anualmente por edital, com contratos de seis meses, capacitação, equipamentos e EPIs; cada unidade opera, em geral, com 15 a 45 brigadistas, executando monitoramento e combate, queima prescrita, organização de queimas de roça, aceiros, educação ambiental e apoio à recuperação de áreas.

Além das brigadas formadas pelo PrevFogo, existem as Brigadas Voluntárias, compostas por colaboradores que desenvolvem atividades de prevenção e combate a incêndios florestais e outras ligadas ao manejo integrado do fogo. Nas Terras Indígenas, as brigadas desempenham dupla função: a contenção imediata de focos e a proteção de aldeias, roças e áreas de uso tradicional; e o manejo preventivo orientado por calendários sazonais, saberes locais e protocolos comunitários (queima prescrita, aceiros, limpeza de margens de estradas e trilhas, proteção de veredas e nascentes).

Persistem desafios estruturais como grandes distâncias, comunicação intermitente, financiamento irregular, renovação de equipamentos e a necessidade de compatibilizar o uso tradicional do fogo com as janelas técnicas do manejo integrado. As BIVs foram identificadas por pesquisa ativa com coletivos; os números não são conclusivos e serão revisados sempre que forem identificadas ou formadas novas brigadas indígenas voluntárias.

Tabela 2 · BRIFs Indígenas (PrevFogo/SISFOGO 2025)

NºNome da BRIF (PrevFogo)UFTI de atuaçãoNº brigadistas
1BRIF-I AváGOTI Avá-Canoeiro15
2BRIF-I CanudalMATI Araribóia15
3BRIF-I GovernadorMATI Governador22
4BRIF-I JuçaralMATI Araribóia15
5BRIF-I Lagoa CompridaMATI Araribóia15
6BRIF-I ZutiwaMATI Araribóia15
7BRIF-I Lagoa BrancaMATI Araribóia15
8BRIF-I KanelaMATI Kanela15
9BRIF-I PorquinhosMATI Porquinhos15
10BRIF-I KrikatiMATI Krikati15
11BRIF-I XacriabáMGTIs Xacriabá, Xakriabá Rancharia e Xacriabá Reestudo29
12BRIF-I Terena IMSTI Aldeia Limão Verde15
13BRIF-I Terena IIMSTI Taunay/Ipegue22
14BRIF-I LalimaMSTI Lalima15
15BRIF-I Terena IIIMSTI Cachoeirinha/Aldeia Babaçu15
16BRIF-I Kadiwéu IMSTI Kadiwéu/Aldeia Alves de Barros15
17BRIF-I Kadiwéu IIIMSTI Kadiwéu/Aldeia Tomásia15
18BRIF-I MarãiwatsédéMTTI Marãiwatsédé15
19BRIF-I ManokiMTTI Irantxe13
20BRIF-I MykyMTTI Menkü15
21BRIF-I JuininhaMTTI Juininha13
22BRIF-I BakairiMTTI Bakairi22
23BRIF-I Urubu BrancoMTTI Urubu Branco15
24BRIF-I ParesiMTTI Paresi22
25BRIF-I Las CasasPATI Las Casas15
26BRIF-I AraribáSPTI Araribá15
27BRIF-I JavaéTOTI Parque do Araguaia15
28BRIF-I KarajáTOTI Parque do Araguaia15
29BRIF-I Sul da IlhaTOTI Parque do Araguaia15
30BRIF-I KrahôTOTI Kraolândia15
31BRIF-I Krahô NorteTOTI Kraolândia15
32BRIF-I Krahô-KanelaTOTI Krahô-Kanela15
33BRIF-I Nordeste da IlhaTOTI Parque do Araguaia15
34BRIF-I Noroeste da IlhaTOTI Parque do Araguaia15
35BRIF-I ApinayéTOTI Apinayé15
36BRIF-I XerenteTOTI Xerente/Funil15

Número total de brigadistas: 578

Tabela 3 · Brigadas Indígenas Voluntárias no Cerrado

NºNome da BIVUFTI de atuação
1Brigada Água BrancaMSTI Nioaque
2Brigada Aldeia BrejãoMSTI Nioaque
3Brigada ApinajéTOTI Apinajé
4Brigada Comunitária Voluntária Aldeia MorrinhoMSTI Cachoeirinha
5Brigada Feminina Comunitária CatijiMATI Governador – etnia Gavião
6Brigada Florestal Comunitária Feminina KrikatiMATI Krikati
7Brigada JuçaralMATI Araribóia
8Brigada Krahô-KanelaTOReserva Indígena Krahô-Kanela
9Brigada Mãe TerraMSTI Cachoeirinha
10Brigada Vila São MiguelMSTI Cachoeirinha
11Brigada Voluntária Cana BravaMATI Cana Brava/Guajajara
12Brigada Voluntária Feminina XerenteTOTI Xerente
Mapa 1 · Distribuição geral das Brigadas Indígenas, Federais e Comunitárias Voluntárias, no Cerrado

O mapeamento indica que a rede de BRIFs federais e a capilaridade das brigadas comunitárias/indígenas formam um importante eixo de proteção territorial. Quando articuladas ao Manejo Integrado do Fogo e ao conhecimento indígena e tradicional, essas brigadas ampliam prevenção, preparo e combate. Persistem, contudo, desafios de financiamento, manutenção de equipamentos, comunicação em áreas remotas, formação continuada (com inclusão de mulheres e jovens) e integração entre escalas (federal–estadual–municipal–territorial).

Recomendações para a MOPIC e as organizações indígenas

  • Priorização orçamentária para TIs com recorrência crônica (Araguaia, Pimentel Barbosa, Paresi, Inawébohona, Kraolândia, Parabubure etc.).
  • Pactos operacionais antes do início do calendário da seca, alinhando contratos de brigadistas, exercícios simulados e logística de suprimentos.
  • Planos de MIF específicos por TI, com indicadores de processo (aceiros, queimas controladas, dias-equipe), de resultado (redução de área queimada/ano; tempo de primeira resposta) e de impacto (integridade de habitats, qualidade da água).
  • Integração contínua dos dados do MapBiomas Fogo/Monitor do Fogo a painéis operacionais, com séries atualizadas e recortes por uso/cobertura.

Três frentes decisivas de política pública

1

Prevenção estruturante

Ampliar mosaicos de MIF em TIs críticas, proteger veredas e nascentes, pactuar queimas prescritas e aceiros com calendários culturais e janelas climáticas seguras.

2

Resposta rápida e logística

Consolidar bases estratégicas no “arco norte” (MA–TO–MT) e em MS, com protocolos de mobilização interinstitucional e uso de sistemas de alerta/monitoramento.

3

Gestão territorial e ambiental

Fortalecer brigadas indígenas e comunitárias como instâncias permanentes de gestão do fogo, com participação em ações de prevenção como recuperação de áreas degradadas, plantio e monitoramento territorial.

Referências

  • Centro de Trabalho Indigenista (CTI) – Base georreferenciada de Terras Indígenas no Cerrado, incluindo dados sobre povos, localização, incidência no bioma e situação fundiária.
  • Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) – Informações oficiais sobre processos administrativos de reconhecimento, demarcação e regularização de Terras Indígenas.
  • Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – Mapas de biomas e divisões político-administrativas do Brasil.
  • MapBiomas – Dados sobre cobertura e uso da terra para identificação de áreas de Cerrado contínuo, transição e manchas.
  • Notas técnicas do CTI – Registros complementares sobre o processo de elaboração do diagnóstico, oficinas e participação de povos e organizações.

Ficha técnica

Boletim Informativo

Povos e Territórios Indígenas do Cerrado

Realização

Centro de Trabalho Indigenista – CTI
Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado – MOPIC

Apoio à publicação

Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos – CEPF
Fundo Brasileiro para a Biodiversidade – FUNBIO / Programa Copaíbas
Instituto Clima e Sociedade – ICS

Coordenação-geral da MOPIC

Hiparidi Top Tiro

Comitê de Mulheres Indígenas da MOPIC

Bernadina Renhere, Daniele Lourenço Gonçalves, Diolina Jõ Hyh Krikati, Edileia Santiago Oliveira, Eliane Rodrigues de Lima, Inair Gomes Lopes, Iranildes Rodrigues Mandicai, Laurentinha Medina, Letícia Jôkáhkwyj Krahô, Lewaki Suya, Maria Diva Ferreira de Brito, Maria José Almeida Ribeiro Apinagé, Maria José Pahxity Alves Kanela, Priscila Ferreira de Souza.

Organização

Mariana Guimarães, Juliana Noleto, Pollyana Mendonça e Priscila Chianca

Revisão

Aluisio Azanha e Jaime Siqueira

Geoprocessamento

Marizete Cerqueira

Consultores

Diogo Azanha e Fernanda Cano de Andrade Marques

Projeto gráfico e diagramação

MUTÁ Comunicação Ambiental

CTI

Conselho estratégico: Andréia Bavaresco (presidência), Maria Auxiliadora Cruz de Sá Leão, Maria Elisa Ladeira, Maria Inês Ladeira, Juliana Noleto e Eliza Castilla. Coordenação executiva: Jaime Siqueira e Juliana Noleto. trabalhoindigenista.org.br

Realização
Logos MOPIC e CTI
Apoio
Logos de apoio: CEPF, IEB, iCS, Copaíbas, FUNBIO, NICFI, ICMBio, MMA e Governo Federal
Boletim Informativo – Volume 2 · Novembro/2025 · Diagnóstico dos Povos e Territórios Indígenas do Cerrado · CTI & MOPIC
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