Povose TerritóriosIndígenasdo Cerrado
Principais resultados do Diagnóstico dos Povos e Territórios Indígenas do Cerrado, uma construção conjunta da MOPIC e do Centro de Trabalho Indigenista (CTI).
Apresentação
Um retrato atualizado da realidade dos povos indígenas que vivem no Cerrado e em suas bordas — pautado pelas demandas e observações das próprias lideranças.
Esta publicação apresenta um boletim informativo com os principais resultados já alcançados pelo Diagnóstico dos Povos e Territórios Indígenas do Cerrado, reunindo informações atualizadas sobre o andamento do processo de elaboração e suas contribuições para a defesa dos povos indígenas que vivem nesse bioma e suas bordas. O Diagnóstico nasceu da articulação entre a Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado (MOPIC) e o Centro de Trabalho Indigenista (CTI). Em parceria com o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), foi realizado em 2008 um estudo pioneiro que reuniu informações socioambientais e fundiárias sobre os territórios indígenas no Cerrado.
Com intuito de atualizar e ampliar esse estudo, o CTI e a MOPIC, por meio do apoio do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF), e do FUNBIO, com o Programa Copaíbas, vêm realizando uma série de ações para reunir informações atualizadas e sistematizadas sobre a realidade dos povos indígenas que vivem no Cerrado, pautadas não apenas por dados técnicos, mas, sobretudo, a partir das demandas e observações das lideranças e organizações indígenas que se articulam na MOPIC. Em especial com o olhar atento do Comitê de Articulação das Mulheres Indígenas do Cerrado, uma articulação promovida por mulheres indígenas da MOPIC no Encontro e Feira dos Povos do Cerrado em 2023.
A pesquisa contempla a caracterização histórica, cultural, ambiental, social, econômica e fundiária dos territórios indígenas, mas também enfatiza as pressões externas que incidem sobre elas, como a expansão do agronegócio, o desmatamento, a mineração, o uso intensivo de agrotóxicos e os efeitos das mudanças climáticas. Mapas e análises específicas sobre desmatamento no entorno dos territórios indígenas revelam o preocupante avanço do agronegócio e a importância dos territórios indígenas como salvaguardas do Cerrado e seus recursos naturais. O estudo também aprofunda a avaliação das políticas públicas voltadas para os recursos hídricos neste bioma e a importância da participação indígena nas instâncias de controle social. Essas informações fundamentam estratégias de incidência política e de defesa dos direitos territoriais, além de fornecer subsídios para o planejamento de políticas públicas e ações de conservação.
O Diagnóstico dos Povos e Territórios Indígenas do Cerrado reafirma o papel central dos povos indígenas como guardiões do Cerrado e destaca suas contribuições para a conservação e a sustentabilidade do bioma. Assim, apresentamos nesse Informativo, de forma resumida, os principais elementos reunidos até aqui, reforçando que o trabalho de levantamento de dados está em curso. A ideia é finalizar esse estudo em uma plataforma virtual da MOPIC, onde serão disponibilizadas informações detalhadas sobre os povos e territórios do Cerrado. Esperamos que essa seja uma ferramenta estratégica de fortalecimento da MOPIC e de suas organizações de base, ampliando a construção de alianças para o bem viver dos povos indígenas e a proteção do Cerrado.
Situação fundiária das 179 TIs
Esses números refletem uma análise inicial dos dados levantados e devem ser alterados durante o processo de construção do Diagnóstico dos Povos e Territórios Indígenas do Cerrado.
MOPIC: Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado
A Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado – MOPIC foi criada em 2004 com a finalidade de promover uma articulação política para garantia dos direitos dos povos indígenas do Cerrado e defesa dos seus territórios, além de incidir nas políticas públicas para a conservação desse bioma e apoiar ações de gestão territorial e ambiental das terras indígenas do Cerrado.
Pelo seu caráter de mobilização, atua de forma descentralizada, por meio de ações locais e regionais, promovendo intervenções, encontros, debates e seminários para discutir as perspectivas dos diferentes povos indígenas sobre as políticas públicas, as ameaças e as oportunidades presentes nos territórios localizados no Cerrado, fortalecendo a articulação entre os povos e suas organizações.
Outra forma importante de atuação da MOPIC é a participação em foros e grupos de trabalho governamentais e não-governamentais com o objetivo de pautar as questões prementes que afetam o Cerrado e os povos indígenas que nele vivem, além de fomentar financiamentos específicos para apoiar a gestão territorial e ambiental das terras indígenas do Cerrado.
A MOPIC é membro da REDE CERRADO. Fundada em 1992 e composta aproximadamente por 70 entidades da sociedade civil associadas, a Rede Cerrado trabalha para a promoção da sustentabilidade, em defesa da conservação do Cerrado e dos seus povos.
Coordenação da Rede Cerrado · mandato até 2027Panorama das Terras Indígenas no Cerrado e suas bordas
O Cerrado corresponde a cerca de 24% do território brasileiro e se estende por onze estados e o Distrito Federal — um mosaico de savanas, cerradões, campos limpos, matas de galeria e veredas.
Neste boletim informativo, apresentamos um levantamento voltado para o Cerrado e suas bordas, entendido aqui como o conjunto formado por Terras Indígenas situadas no bioma Cerrado, em áreas de transição entre biomas como a Caatinga, o Pantanal, a Amazônia e a Mata Atlântica. É importante destacar que o conceito de bordas aqui adotado não se limita a uma definição estritamente ecológica: ele envolve igualmente dimensões históricas, arqueológicas, etnográficas e políticas, refletindo as múltiplas formas de relação e vivência dos povos indígenas com o Cerrado e as lutas que travam pela permanência e pela defesa desses territórios. O objetivo é oferecer uma base de informações que permita à MOPIC tomar decisões políticas sobre sua área de atuação e estratégias de defesa dos territórios e direitos dos povos indígenas do Cerrado.
O ponto central a destacar é que a maioria dos povos indígenas aqui considerados têm uma trajetória, uma persistência e uma vivência do(s) Cerrado(s) que se expressa em diferentes dimensões. Em maior ou menor grau, essas experiências são compartilhadas e conformam uma cosmopolítica comum, isto é, modos diversos de criar mundos possíveis nos encontros entre povos e nas alianças que se estabelecem.
Os dados aqui apresentados têm origem em fontes públicas oficiais, como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Trata-se de um trabalho em andamento, que requer leitura cuidadosa diante da complexidade fundiária desses territórios e da diversidade de situações jurídicas e administrativas que os caracterizam.
A situação fundiária das Terras Indígenas no Cerrado é marcada por um contexto dinâmico e desafiador. Os povos indígenas desenvolveram formas próprias de ocupação e manejo, baseadas em conhecimentos tradicionais transmitidos ao longo de gerações, envolvendo práticas agrícolas, rituais, cartografias orais e manejo de recursos naturais. Apesar dessa presença histórica, muitas Terras Indígenas permanecem sem regularização por parte do estado brasileiro ou em situação de pressão por políticas de expansão agrícola e outras formas de exploração econômica do território.
Contexto Histórico e Cultural
O Cerrado nunca foi um “vazio”, mas sim uma região de abundância e diversidade.
O Cerrado sempre foi um território cheio de vida, habitado e cuidado pelos povos indígenas. Ao longo do tempo, eles formaram aldeias, desenvolveram sistemas de cultivo e circulação e criaram conhecimentos que unem natureza, cultura e espiritualidade. Povos como os Xavante, Krahô, Kayapó, Apinajé, entre tantos outros, mantêm até hoje uma relação profunda com os rios, as florestas e as paisagens que sustentam sua vida e sua identidade. Os povos indígenas não são apenas guardiões do passado, mas protagonistas do presente e do futuro do Cerrado.
O Cerrado é uma paisagem viva habitada há milênios. Os povos que viveram e transitaram nesse território desde 10 mil anos antes do presente moldaram esse espaço, transmitindo conhecimentos e práticas que o mantêm fértil e diverso: um território. O território é não apenas solo e vegetação, e sim um lugar significativo, continuamente (re)construído pelas relações culturais e espirituais entre humanos, não humanos e extra-humanos.
Imagem: Acervo CTI
A ocupação humana no Cerrado remonta a cerca de dez mil anos, com registros da Tradição Itaparica na fabricação de utensílios de pedra. Sítios arqueológicos como a Serra da Capivara, Santa Elina e Pedra Pintada mostram conexões antigas entre o Cerrado e outras regiões.
Imagem: Moreno de Sousa, J. C. 2016. Journal of Lithic Studies 3(1).
A chegada dos colonizadores europeus no Brasil Central no início do século 17 provocou profundas transformações. Os povos de línguas Macro-Jê formavam populações com mais de mil, duas mil pessoas, mas não tinham resistência aos bacilos trazidos pelos invasores — a maioria foi dizimada por doenças como resfriados, gripes e sarampo. Mas muitas delas resistiram e mantêm até hoje práticas, territórios e suas identidades étnicas.
Imagem: MORI, Robert. Os aldeamentos indígenas no Caminho dos Goiases: guerra e etnogênese no sertão do Gentio Cayapó (Sertão da Farinha Podre) séculos XVIII e XIX. 2015
Ao longo de milhares de anos, os povos indígenas moldaram as paisagens do Cerrado e continuam a fazê-lo, equilibrando tradição e inovação. A presença indígena é dinâmica, adaptando-se às mudanças e reafirmando o Cerrado como território vivo e diverso. Imagens: Acervo CTI
Políticas Públicas e Participação Indígena
Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs), protocolos comunitários e outros instrumentos ganham destaque — mas sofrem com a falta de recursos permanentes e a descontinuidade de programas do governo.
Os povos indígenas do Cerrado organizam a gestão de seus territórios de diferentes formas, que envolvem tanto seus modos próprios relacionados à sua organização sociocultural e suas instâncias comunitárias internas, quanto por meio de ações realizadas por suas associações representativas de diversos níveis (local, regional e nacional). Ainda assim, mesmo em diálogo com o poder público, que detém obrigações legais de proteção dos territórios, os povos do Cerrado enfrentam dificuldades para que suas demandas de gestão sejam atendidas e seus direitos sejam assegurados.
Para compreender melhor esses desafios, o diagnóstico analisou dois pontos que afetam diretamente os territórios indígenas no Cerrado: as políticas públicas de água e os incentivos ao agronegócio.
Recursos Hídricos
O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul e é conhecido como a “caixa d’água” do país: garante a recarga de oito das doze grandes bacias hidrográficas brasileiras. Abriga três grandes aquíferos — Bambuí, Guarani e Urucuia — e ajuda a manter o equilíbrio hídrico da Amazônia, do Pantanal, da Caatinga e da Mata Atlântica.
De forma geral, 55% das bacias do Cerrado já contam com Comitês de Bacia Hidrográfica (CBHs) instalados. Mesmo assim, a participação indígena nesses espaços ainda é muito pequena. Essa falta de representatividade faz com que os saberes indígenas não sejam valorizados como deveriam — e os interesses do agronegócio e da indústria acabam pesando mais nas decisões sobre o uso da água.
- 302bacias hidrográficas no Cerrado
- 86têm sobreposição com terras indígenas
- 40dessas possuem CBHs estaduais
- 11desses comitês têm representação indígena — 29 não possuem
- 10/11CBHs interestaduais com representação indígena
Sobreposição de bacias hidrográficas com territórios indígenas por estado
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do IBGE (2021).
Pontos críticos de governança
- Cobertura e funcionamento dos CBHs ainda heterogêneos no Cerrado; parte das bacias sem comitês instalados e déficit de transparência sobre funcionamento em alguns casos.
- Sub-representação indígena nos CBHs e desequilíbrio na composição (peso de agronegócio/indústria), comprometendo a incorporação de saberes tradicionais e a mediação de conflitos.
- Lacunas de informação (GO/PI) e necessidade de padronização/acesso a dados sobre status e instrumentos de gestão.
O que os documentos recomendam
- Garantir participação efetiva de povos indígenas e comunidades tradicionais nas decisões sobre as águas.
- Criar um banco público de dados de outorgas (superficiais e subterrâneas) e fortalecer fiscalização, transparência e acesso à informação.
- Aplicar o art. 15 da Política Nacional de Recursos Hídricos (suspensão de outorgas quando necessário para prevenir/reverter degradação ou atender usos prioritários).
Estudos de caso sobre a gestão dos recursos hídricos
Quatro rios fundamentais para os modos de vida dos povos Guarani Kaiowá, Xavante, Terena e Xakriabá. A metodologia integrou revisão bibliográfica, análise documental e entrevistas com lideranças indígenas.
Rio Apa — Mato Grosso do Sul
O rio, fundamental para a subsistência, espiritualidade e cultura da comunidade, sofre intensas pressões externas. Entre as principais vulnerabilidades estão o desmatamento, os incêndios criminosos, a contaminação por agrotóxicos e a redução drástica da vazão. Esses fatores comprometem a saúde, a segurança alimentar e os saberes tradicionais relacionados ao uso das águas e das plantas medicinais. Em resposta, a comunidade mobiliza práticas de conservação — como recuperação de nascentes e reflorestamento — e reivindica apoio institucional para fortalecer sua autonomia.
Instrumentos de gestão
- Acordo de Cooperação Brasil–Paraguai para a Gestão Sustentável da Bacia do Rio Apa (2006).
- Comissão Mista Brasileiro–Paraguaia para gestão integrada da bacia.
- Bacia como Unidade de Planejamento e Gerenciamento (UPG) no Plano Estadual de Recursos Hídricos de MS.
Principais vulnerabilidades
- Redução drástica da vazão e secamento de nascentes.
- Desmatamento e incêndios criminosos.
- Contaminação por agrotóxicos, afetando saúde e biodiversidade.
- Perda de plantas medicinais e erosão cultural associada.
Estratégias e recomendações
- Educação ambiental intergeracional.
- Reflorestamento e recuperação de nascentes.
- Monitoramento participativo da qualidade da água.
- Formação de brigadas indígenas contra incêndios.
Rio das Mortes — Mato Grosso
O estudo destaca a sobreposição de pressões do agronegócio, hidrelétricas e mineração. A agricultura irrigada, baseada em pivôs centrais, gera escassez hídrica e contaminação por agrotóxicos, afetando a pesca e a segurança alimentar. Projetos de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) ameaçam alterar profundamente o regime hidrológico, muitas vezes sem consulta adequada às comunidades. Processos minerários — sobretudo de ouro — ampliam os riscos. Apesar da existência de comitês de bacia, a participação indígena ainda é limitada.
Instrumentos de gestão
- Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Rio das Mortes (CBH COVAPÉ), criado em 2003.
- Processo de criação do Comitê de Bacia do Alto Rio das Mortes (em andamento em 2025).
- Mobilização popular e assembleias com povos indígenas, ribeirinhos, agricultores e sociedade civil.
Principais vulnerabilidades
- Irrigação intensiva com pivôs centrais, reduzindo a vazão dos rios.
- Agrotóxicos causando mortandade de peixes e insegurança alimentar.
- Desmatamento ilegal e incêndios criminosos.
- PCHs e UHEs sem consulta prévia adequada.
Estratégias e recomendações
- Garantir consulta livre, prévia e informada nos licenciamentos.
- Fortalecer participação indígena nos comitês de bacia.
- Ampliar fiscalização sobre agrotóxicos, mineração e desmatamento.
- Apoiar gestão participativa e monitoramento comunitário da água.
Rio Miranda — Mato Grosso do Sul
Fonte essencial de água, alimento e vida comunitária, o rio enfrenta ameaças múltiplas: esgoto urbano lançado diretamente no rio, uso intensivo de agrotóxicos, pressão turística sem infraestrutura, incêndios florestais recorrentes e a ausência de políticas consistentes de fiscalização. Embora exista um comitê de bacia formalmente estruturado, a participação indígena tem sido sistematicamente negligenciada, em descumprimento ao próprio regimento.
Instrumentos de gestão
- Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Miranda (CBH Miranda), instituído em 2005.
- Regimento interno prevê participação indígena e da sociedade civil (muitas vezes descumprido).
Principais vulnerabilidades
- Lançamento de esgoto urbano diretamente no rio.
- Contaminação por agrotóxicos do agronegócio.
- Turismo desordenado e lixo nas margens.
- Incêndios florestais recorrentes.
- Ausência de apoio governamental para resíduos e fiscalização.
- Exclusão de representantes indígenas na composição recente do comitê.
Estratégias e recomendações
- Garantir representatividade indígena efetiva no CBH Miranda.
- Monitoramento comunitário da qualidade da água.
- Fortalecer brigadas indígenas de combate ao fogo.
- Recuperar áreas degradadas e nascentes com espécies nativas.
- Repasse justo de recursos (ex. ICMS Ecológico).
Rio Peruaçu — Minas Gerais
A região, marcada por longos períodos de estiagem e déficit hídrico, enfrenta pressões de atividades agropecuárias intensivas, desmatamento, incêndios e projetos minerários (ouro, manganês, fosfato). A escassez obriga muitas aldeias a depender de poços artesianos e caminhões-pipa, enquanto o rio apresenta redução da vazão e perda de qualidade. As lideranças apontam como prioridades a demarcação integral do território, a recuperação de áreas degradadas, a revitalização das nascentes e a educação ambiental.
Instrumentos de gestão
- CBH dos Afluentes Mineiros do Médio São Francisco (estadual).
- CBH do Rio São Francisco (interestadual).
- Atuação da CODEVASF em irrigação e gestão hídrica regional.
Principais vulnerabilidades
- Escassez hídrica agravada por estiagens.
- Dependência de poços artesianos e caminhões-pipa.
- Redução da vazão e da qualidade do rio.
- Desmatamentos, incêndios e desaparecimento de nascentes.
- Pressões de mineração.
- Predomínio do agronegócio nos comitês de bacia.
Estratégias e recomendações
- Ampliar a demarcação integral do território Xakriabá.
- Recuperar nascentes e áreas degradadas por reflorestamento.
- Educação ambiental e projetos sustentáveis com jovens e escolas.
- Apoiar a revitalização comunitária do rio.
- Maior participação indígena na gestão hídrica.
Incentivos ao Setor Agropecuário
Desde a década de 1970, o Cerrado tem sido a principal área de expansão agropecuária do país — com consequências graves para os povos indígenas.
Programas do governo ofereceram crédito, incentivos fiscais e infraestrutura para ampliar a produção em larga escala. Esse avanço trouxe desmatamento, destruição de nascentes, perda de biodiversidade e aumento dos conflitos por terra. Os povos indígenas estão entre os mais afetados: sofrem com a pressão sobre seus territórios, a contaminação por agrotóxicos, a escassez de água e a violação de seus direitos.
Mesmo em terras já demarcadas, como as TIs dos povos Xavante, os impactos aparecem no uso intensivo de agrotóxicos, na escassez de água e na limitação do acesso a áreas de coleta, caça e rituais. É urgente reconhecer o papel central dos povos indígenas na conservação do Cerrado: seus modos de viver, produzir e cuidar da terra são alternativas concretas ao modelo dominante.
Distribuição do crédito rural — Brasil (2022)
LINHA DO TEMPO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS
Início da ocupação agropecuária planejada pelo governo
O governo criou programas como POLOCENTRO e PRODECER para ocupar o Cerrado com lavouras e pecuária, oferecendo crédito, apoio técnico e infraestrutura. Grandes áreas de vegetação nativa viraram fazendas, trazendo degradação ambiental, perda de biodiversidade e conflitos com comunidades tradicionais e povos indígenas, muitas vezes expulsos de suas terras.
Expansão do agronegócio e enfraquecimento da agricultura familiar
O agronegócio cresceu fortemente com foco na soja, milho e algodão. A agricultura familiar e os povos tradicionais perderam espaço, com menos terras disponíveis, migração para as cidades e envelhecimento da população do campo. Programas como o PRONAF tiveram alcance limitado.
Redução de políticas públicas e aumento das desigualdades
A partir de 2010, e mais intensamente após 2016, programas como o PAA, o PNAE e até o Ministério do Desenvolvimento Agrário foram reduzidos ou desmontados. Isso dificultou a venda da produção local, reduziu o acesso ao crédito rural e limitou o apoio a práticas sustentáveis — enquanto o agronegócio continuou recebendo forte apoio do Estado.
MATOPIBA (2015)
O governo federal lançou oficialmente o plano de desenvolvimento para o MATOPIBA — partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, considerada a nova fronteira agrícola do Cerrado. Na prática, o avanço do MATOPIBA intensificou o desmatamento, a grilagem de terras e os conflitos fundiários, afetando diretamente comunidades indígenas, quilombolas e camponesas, e reforçou um modelo baseado em monoculturas de exportação.
Principais pressões, ameaças e desafios
Ameaças interligadas, cuja intensidade varia de acordo com a localização, a situação fundiária e a presença de atividades econômicas no entorno.
Uso da terra pela agropecuária
Os conflitos de terra estão ligados à expansão da agropecuária, ao uso intensivo de agrotóxicos e a problemas com o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Muitos registros do CAR são sobrepostos de forma irregular a territórios indígenas e usados como justificativa para ocupações ilegais e desmatamentos. A pulverização próxima às aldeias contamina solos, rios e alimentos.
Mineração
Uma das atividades que mais cresce no Cerrado, principalmente em MG, GO, MT e TO, movida pela demanda internacional por ferro, níquel, alumínio e ouro. Grande parte da produção é exportada, com pouco retorno local. O carvão vegetal para a siderurgia responde por ~30% do ferro-gusa e está entre as cadeias com mais violações trabalhistas.
Crise climática
Períodos secos mais longos e chuvas concentradas afetam a água, a produtividade e as queimadas. Comunidades relatam atrasos nas chuvas que prejudicam o plantio de variedades tradicionais, como milho e feijão. Projeções da Embrapa indicam menor disponibilidade hídrica e maior irregularidade das chuvas se a destruição continuar.
| Ameaça | Descrição | Impactos observados |
|---|---|---|
| Expansão agropecuária | Avanço de lavouras e pastagens sobre zonas de amortecimento e áreas tradicionais | Redução de áreas de uso, perda de fauna e flora |
| Desmatamento | Supressão de vegetação nativa, especialmente no MATOPIBA | Fragmentação de habitats, perda de recursos naturais |
| Mineração | Requerimentos minerários sobrepostos a TIs, exploração de recursos | Degradação ambiental, contaminação da água, perda de áreas culturais |
| Conflitos fundiários | Sobreposição de CAR e invasões | Insegurança territorial, disputas e violência |
| Agrotóxicos | Pulverização aérea e uso intensivo próximo a aldeias | Contaminação de água, solo e alimentos, impactos à saúde |
| Mudanças climáticas | Alterações no regime de chuvas e aumento de secas | Redução da disponibilidade hídrica, prejuízos à agricultura tradicional |
Estudos de caso de desmatamento
Três territórios analisados entre 2002 e 2024: o desmatamento se concentra fora dos limites das TIs, em um entorno (buffer) de 10 km.

Distribuição espacial do desmatamento na TI e em seu entorno de 10 km (2002–2024). Fonte: PRODES/Cerrado (INPE), 2024.
Terra Indígena Avá-Canoeiro
Localizada em Goiás, abriga uma população extremamente reduzida. Apesar da homologação recente, a área apresenta desmatamento interno muito baixo, com registros residuais desde 2010 — a última detecção no interior ocorreu em 2019 — contrastando com o entorno, onde a expansão agrícola é intensa.


Distribuição espacial do desmatamento na TI e em seu entorno de 10 km (2002–2024). Fonte: PRODES/Cerrado (INPE), 2024.
Terra Indígena Bakairi
Localizada em Mato Grosso, sofreu forte pressão da fronteira agropecuária, especialmente até 2008. Embora a TI não apresente CARs sobrepostos, o entorno está dominado por grandes propriedades rurais. O gráfico mostra pico expressivo em 2008, novo aumento em 2010 e tendência de retomada a partir de 2022. A comunidade desenvolve estratégias de manejo sustentável, como cultivos de arroz, milho e feijão.


Distribuição espacial do desmatamento na TI e em seu entorno de 10 km (2002–2024). Fonte: PRODES/Cerrado (INPE), 2024.
Terra Indígena Krikati
No Maranhão, enfrenta forte pressão do agronegócio, e o uso do fogo como instrumento agropecuário intensifica a degradação. O processo de regularização fundiária não foi concluído: mais de 200 ocupantes não indígenas permanecem no território e disputas jurídicas impedem a posse plena pelos indígenas. O desmatamento interno recente é consequência dessa necessidade de desintrusão.

A comparação entre as três Terras Indígenas evidencia que, embora a proteção legal das TIs funcione como barreira relativa ao desmatamento, sua efetividade depende de políticas públicas consistentes, fiscalização ativa e fortalecimento da governança indígena. A preservação desses territórios exige ações coordenadas entre Estado, sociedade civil e comunidades indígenas para assegurar a integridade ambiental, cultural e territorial no Cerrado.
Tendências futuras
e a resposta indígena
As projeções sobre o futuro do Cerrado indicam um cenário preocupante. O avanço da fronteira agropecuária tende a se intensificar, especialmente sobre áreas ocupadas por povos indígenas e comunidades tradicionais. O MATOPIBA, o oeste da Bahia, o norte de Minas Gerais e o nordeste de Mato Grosso estão entre as áreas mais visadas (Agrosatélite, 2021). A continuidade desse modelo — monoculturas para exportação, insumos químicos e concentração fundiária — ameaça agravar a crise climática e territorial (Embrapa, 2020).
No entanto, os povos indígenas do Cerrado não estão passivos diante dessa realidade. Comunidades vêm se organizando para resistir à invasão de seus territórios, denunciar violações e fortalecer suas estratégias de retomada e autodemarcação, articulando conhecimentos tradicionais, alianças políticas e mobilização jurídica e internacional. Essas formas de resistência territorial têm sido fundamentais para conter o desmatamento e manter áreas inteiras de vegetação nativa em pé (Cassenote, 2023).
Em fóruns internacionais, as lideranças denunciam os impactos das exportações e a conivência dos sistemas de certificação com cadeias produtivas que violam seus territórios, e apresentam propostas concretas. Segundo a Amnesty International (2023), é fundamental que mecanismos internacionais de proteção acompanhem de perto a situação dos defensores indígenas no Brasil, diante da impunidade e da falta de respostas efetivas do Estado.
Recomendações
Referências
- Centro de Trabalho Indigenista (CTI) – Base georreferenciada de Terras Indígenas no Cerrado, incluindo dados sobre povos, localização, incidência no bioma e situação fundiária.
- Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) – Informações oficiais sobre processos administrativos de reconhecimento, demarcação e regularização de Terras Indígenas.
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – Mapas de biomas e divisões político-administrativas do Brasil.
- MapBiomas – Dados sobre cobertura e uso da terra para identificação de áreas de Cerrado contínuo, transição e manchas.
- Notas técnicas do CTI – Registros complementares sobre o processo de elaboração do diagnóstico, oficinas e participação de povos e organizações.
Ficha técnica
Boletim Informativo
Povos e Territórios Indígenas do Cerrado
Realização
Centro de Trabalho Indigenista – CTI
Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado – MOPIC
Apoio à publicação
Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos – CEPF
Fundo Brasileiro para a Biodiversidade – FUNBIO / Programa Copaíbas
Instituto Clima e Sociedade – ICS
Coordenação-geral da MOPIC
Hiparidi Top Tiro
Comitê de Mulheres Indígenas da MOPIC
Bernadina Renhere, Daniele Lourenço Gonçalves, Diolina Jõ Hyh Krikati, Edileia Santiago Oliveira, Eliane Rodrigues de Lima, Inair Gomes Lopes, Iranildes Rodrigues Mandicai, Laurentinha Medina, Letícia Jôkáhkwyj Krahô, Lewaki Suya, Maria Diva Ferreira de Brito, Maria José Almeida Ribeiro Apinagé, Maria José Pahxity Alves Kanela, Priscila Ferreira de Souza.
Organização
Mariana Guimarães, Juliana Noleto, Pollyana Mendonça e Mauro Siqueira
Geoprocessamento
Marizete Cerqueira
Consultores
Gilberto Azanha, Sarah Frota, Mariana Pontes Campos, Maria Eduarda Lindoso Silva Porto, Pablo de Lima Galeão
Projeto gráfico e diagramação
MUTÁ Comunicação Ambiental
CTI
Conselho estratégico: Andréia Bavaresco (presidência), Maria Auxiliadora Cruz de Sá Leão, Maria Elisa Ladeira, Maria Inês Ladeira, Juliana Noleto e Eliza Castilla. Coordenação executiva: Jaime Siqueira e Juliana Noleto. trabalhoindigenista.org.br
Realização

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